Manifesto sobre a expressão das emoções

Acreditamos que é com o corpo todo que se trabalha. A arte torna-se uma ferramenta completa quando ela é resultado do diálogo entre as percepções do corpo, as experiências da alma e a estruturação do intelecto.

Desde o século XVIII nós somos cada vez mais governados pela necessidade de produtividade e de eficiência e pela supremacia do intelecto. A manifestação emocional, nesse contexto, não é muito bem-vinda ou é bastante controlada. Se entrarmos nas linhas diretrizes do sistema patriarcal, que rege a relação entre homens e mulheres, podemos dizer que aos homens são permitidas as demonstrações de raiva mas, em geral, é negado o contato com o medo, a frustração, o amor, a tristeza, a vulnerabilidade. A expressão das emoções é tida, em muitos cenários, como uma fraqueza. E é inclusive associada às mulheres. Segundo o patriarcado, mulheres têm mais direito a essas demonstrações, mas isso é entendido como uma fragilidade. Entendemos que estamos todos – mulheres, homens, pessoas não binárias –, no que diz respeito à liberdade em relação às nossas emoções, sendo reprimidas e reprimidos por um mesmo sistema, ainda que de diferentes maneiras, porque sabemos que as mulher são ainda mais silenciadas.

No contexto das artes visuais, e mais especificamente da fotografia, a dinâmica não é diferente. As obras expressivas que incluem sentimentos, ou que se baseiam neles, são entendidas, muitas vezes, como expressões menores, menos válidas ou apenas narcísicas.

Entregar-se por inteiro em uma atividade artística – o que inclui dar espaço às emoções – é uma forma de resistência. Como somos ensinados e reprimir sentimentos, vê-los escancaradas pode ser desconfortável ou pode ser considerado como uma ação demasiadamente autocentrada.

Mas dizer que um trabalho escancara uma emoção não é o mesmo que dizer que ela será apresentada de forma bruta, selvagem, desorganizada. Muito pelo contrário. A ideia aqui é que as percepções virem pensamento, se estruturem, sejam comunicadas. A finalidade dos trabalhos expressivos não é a autovalorização ou a autoanálise. É a criação de uma experiência que não cabe em palavras, que não se explica. E, para que isso ocorra, é necessário aprender uma linguagem, estruturar um pensamento, trabalhar.

Quando um processo – mesmo que se pretenda “artístico”– se restringe a ser uma ferramenta de reconhecimento de si, sem que se trabalhe a linguagem, sem que haja transformação, ele se torna desinteressante e faz jus à crítica de tornar-se autocentrado.

É verdade que muitas obras possuem vivências pessoais como matéria-prima. Mas, nessas criações, a ideia não é que se fique preso a uma experiência real, aos fatos. Mesmo que haja uma história objetiva como gatilho, a transformação é bem-vinda e desejada. A autoimaginação – a possibilidade de ficção, a possibilidade de dar o destino que se queira a uma narrativa – é muito transformadora. Na arte, podemos imaginar, podemos ser de outras maneiras.

É importante que todos possam se expressar sem ter que castrar suas emoções ou sua sensibilidade, o que reproduziria uma lógica patriarcal opressora. Seja lá o que for que carreguemos em nossos corpos (ansiedade, medo, prazer, etc.), é essencial que possamos sentir e fazer circular essa energia. Porque assim seremos capazes de nos transformar. Na medida em que os processos artísticos são libertadores, a arte é uma oportunidade para estruturar psiques mais saudáveis. Isso se aplica tanto a quem cria quanto a quem recebe uma obra artística e se identifica com ela. A arte é uma espécie de magia.

Nesse sentido, a coleção Rosa Brava é um convite a todas as pessoas, mesmo que tenhamos optado em começar publicando mulheres.

Queremos dar voz a subjetividades íntegras e livres, sensíveis e fortes.

Helena Rios