Falamos bastante sobre A Barca nesse último mês. Refletimos sobre o processo de criação da publicação, sobre a existência de muitas identidades em uma mesma narrativa, sobre a relação entre imagens e palavras, sobre a estratégica de distribuição atrelada à compra de livros de fotografia. Amanhã teremos o lançamento da publicação e uma roda de conversas na Lovely House* e estamos nos questionando sobre algo que objetivamente não conversamos com os demais autores… “o que desejamos de uma publicação como A Barca?”. Claro que não há como responder pelos demais participantes do projeto. Mas a nós dois podemos colocar a reflexão.

Gostamos de aprender e de ensinar e A Barca tem sido um laboratório para nós. Nela, podemos testar processos de edição, de impressão e desenho gráfico, de distribuição, de colaboração e, falando de questões menos objetivas, podemos refletir, juntos, sobre nosso fazer ou nosso posicionamento enquanto autores. Ouso afirmar que esse processo tem nos deixado mais íntimos e mais livres para questionar, no grupo, cada passo e cada decisão.

Precisamos pertencer. Poderia dizer que já pertencíamos ao grupo de autores que, entre outras ações, desenvolve A Barca, mesmo antes da publicação. É verdade. Mas arrisco dizer que A Barca aprofunda esse pertencimento. Porque n’A Barca nos deixamos coexistir em um lugar que é importante para todos nós: nossas expressões como autores. Somos partes a formar um todo. Esse todo dá sentido às partes. É uma boa sensação.

Esperamos nos comunicar e, aqui, me refiro à comunicação com a sociedade em que vivemos, feita de pessoas que conhecemos e de pessoas que não conhecemos. É também uma forma de pertencimento. Será que aquilo que propomos com essa edição d’A Barca – os ciclos de morte e de vida, a existência simultânea dessas duas forças, a finitude, as espirais de (quase) repetição – faz parte, também, de você, que lê essa carta? Será que fala sobre sua experiência nesse ou em outros tempos? Como, enquanto autores, podemos exercer esse papel de porta voz de um grupo? Um artista é capaz de sentir – e até mesmo de prever – as vibrações de um lugar e de traduzir essas vibrações em sua obra? Isso serviria para que os demais indivíduos que habitam esse mesmo lugar pudessem tomar como suas essas manifestações do artista e pudessem, também, ver-se espelhados ali e sentir-se como parte daquilo.

A comunicação, essa sobre a qual escrevo, que é feita de pertencimento, serve, também, para inspirar outros trabalhos, para deixar fluir as trocas. Talvez esteja aí a maior satisfação de um trabalho: a reverberação. Por que alguns trabalhos – e não outros – são aceitos, invadem, reverberam em outros corpos a ponto de serem assimilados? Existe uma parte dessa magia que diz respeito ao receptor, suas experiências pessoais, suas atrações. Mas, como autores, sabemos que não se trata de pura magia. Tem a ver com um jogo entre sensações e pensamento, emoção e razão. Tem a ver com nossa verdade, nossa potência, nossa vibração. E tem a ver com nosso repertório, nosso estudo, nossos questionamentos, nosso trabalho e nosso suor. E com o constante caminhar (outra boa sensação!).

imagem do trabalho Abrigo, Marcelo Greco, 2020

*O lançamento e a roda de conversa acontecerão amanhã – sábado, dia 02/04 –, a partir das 15h, na Lovely House Casa de Livros – Rua Augusta, 2690 Galeria Ouro Fino, 2º andar, #329, Cerqueira César, São Paulo. Venham!

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Helena Rios e Marcelo Greco