Território Íntimo

Marcelo Greco

Parte 1 (maio de 2020)

Na mão um objeto metálico em formato retangular, um pouco maior que uma caixa de fósforos. Em uma das superfícies havia um disco transparente e, dentro dele, um ponteiro. Não sabia porque esse objeto existia em minha casa, o fato é que ele me fascinava. Segurando firme com minhas mãos, descobri que o ponteiro se mexia. Se apontava para a janela, o ponteiro ia para um lado e, se me virava – à direita ou à esquerda – para dentro de casa, para o armário aberto, o ponteiro ia automaticamente para o outro extremo. Como podia isso acontecer? Nada tocava aquele ponteiro.

A imagem acima descreve um momento da minha infância, um período indeterminado, quando eu devia ter entre 5 e 8 anos. Não sei se a experiência ganhou importância na minha memória ao longo do tempo ou se de fato, quando acontecia, ela era assim mágica. Mas, em minhas recordações, eu ficava absolutamente deslumbrado em perceber como o ponteiro daquele equipamento estranho se movia. Fiz esse experimento várias vezes e sempre ocorria o mesmo. Questionava-me, surpreso, como o ponteiro se mexia sem contato físico de nenhuma espécie. Ali havia uma magia, uma espécie de emoção que me contagiava. Nunca saiu da minha mente o fascínio dessa experiência.

A vida prosseguiu e, muito tempo depois, quando me envolvi com a fotografia, compreendi racionalmente o fenômeno que havia presenciado na infância. Entendi primeiro que aquele objeto era um fotômetro e que a tal magia, na realidade, era a medição da intensidade de luz do ambiente. No entanto, o verdadeiro encanto, pude compreender com o tempo, não estava no movimento do ponteiro, mas sim na minha imaginação, naquilo que eu criava como possibilidades para explicar aquele acontecimento.

Não foi pelos aspectos técnicos da criação de uma imagem que a fotografia me seduziu. Claro que esta dimensão é fundamental para a elaboração de uma linguagem; não a desconsidero. Mas me atraí pela riqueza das experiências pessoais que a fotografia é capaz de me propiciar. E me encantei pela percepção de que uma imagem se cria pelo movimento do meu corpo e da minha imaginação. O fascínio está exatamente aí. Como criar imagens que representem meu universo interior, minha imaginação, utilizando para isso a matéria do meu exterior, do meu entorno? Este é o desafio da autoria com a fotografia.

Entendi logo cedo que exercer a profissão de fotógrafo – refiro-me aqui à fotografia aplicada comercialmente – não seria o meu caminho. Eu percorreria um território particular, que é o uso da fotografia como forma de expressão pessoal. Ser um autor é um desafio do campo do sensível. É utilizar uma linguagem para criar uma imagem que represente algo interno. Nesse exercício de estabelecer relações entre o mundo externo e o mundo interno, corremos sempre o risco de nos tornarmos narcísicos em demasia. Compreender como enxergamos o mundo e o que tem de nós em cada imagem, é um exercício que exige um certo desprendimento de si. 

Toda vez que criamos uma imagem, efetuamos um exercício de recorte do mundo. Neste sentido esse recorte obrigatoriamente fala muito mais do autor do que do mundo em si. Por que esse recorte? Por que realizá-lo com a linguagem escolhida, não importa qual seja ela?

Certamente esses questionamentos, se refletidos com cuidado e sinceridade, obrigam-nos a concluir que o mundo é um grande cenário para nossas paisagens internas. O desafio é sermos capazes de construir, com linguagem adequada, as representações do que sentimos, pensamos, temos de experiências e desejamos narrar.


Parte 2 (junho de 2020)

Volto à cena da minha infância na qual aparecem um armário, em uma das paredes do quarto, e uma janela, do outro lado. Primeiro, o armário e tudo que havia dentro dele: o ponteiro – aquele objeto que mais tarde eu iria saber se tratar de um fotômetro – movimentava-se para um dos extremos. Em seguida, o olhar para a janela: o ponteiro caminhava para o outro lado. O interior escuro do armário e a luz do mundo lá fora.

Muito tempo depois, com repetida persistência e alguma experiência, pude compreender que a cena da minha memória de infância apresenta questões fundamentais da busca pela autoria.

No armário guardamos objetos pessoais, nossos segredos. Mergulhar para dentro desse lugar escuro,  é como descer às minhas sombras. Em paralelo, a outra simbologia: o mundo através da janela será sempre um recorte, limitado por uma moldura, um vão específico.

Mergulhar neste armário escuro sempre me pareceu mais interessante, misterioso e perturbador, que a luz do mundo lá fora. A fotografia, para mim, é como uma sombra. Para uma sombra adquirir forma é necessário uma luz projetada em algo físico, num corpo.  A sombra é uma projeção desse objeto real. Não é o objeto em si, mas está intrinsecamente conectada a ele, existe por causa dele. A fotografia se assemelha à sombra na medida em que também necessita dessa materialidade do mundo para existir como ato de criação.

A essa relação entre realidade e projeção chamo de “efeito sombra”. É, para mim, o ponto crucial na fotografia. Sua força vem exatamente deste lugar, da intersecção que existe entre o real e sua projeção. Olhamos para sombra acreditando olhar para um real. É neste ponto que a fotografia ganha contornos de algo mágico.

O fotógrafo recorta o mundo. A imagem é invariavelmente feita através de uma janela. Esse recorte fala mais de nós do que do mundo. O entendimento dessa relação entre mundo interno e mundo externo é difícil de ser alcançado. Todas as nuances desse processo são imprecisas, como os detalhes flutuantes de uma sombra.


Parte 3 (setembro de 2020)

A máquina fotográfica é mais do que uma máquina de gravar, é um meio pelo qual nos chegam mensagens de um outro mundo, de um mundo que não é o nosso e que nos conduz ao cerne de um segredo.

Orson Welles

No bloco anterior disto que estou entendendo como um agrupamento de ideias sobre fotografia autoral, apresentei algumas reflexões que são fundantes do meu pensamento. O efeito sombra nos coloca diante de um dilema: quando vemos uma imagem, aquilo que acreditamos ser real nada mais é que uma ilusão. Poderíamos voltar ao Mito da Caverna, de Platão, alegoria que trata, entre outras questões, dos graus de conhecimento da realidade. Os prisioneiros, aos quais se mostra apenas as sombras de pessoas e objetos que passam diante de uma fogueira, acreditam que tais cópias imperfeitas da realidade sejam a totalidade do mundo. Acreditam numa parte da realidade como sendo a realidade toda, inteira. Apesar de eu não acreditar que a filosofia dê conta de todos os aspectos da criação artística, podemos fazer aqui um paralelo: se o que fotografamos são sombras, projeções de um imaginário e, ao mesmo tempo, projeções de uma realidade maior, à qual não temos acesso, devemos aceitar que trabalhamos com a ilusão ao construir imagens.

Deveríamos aceitar também que as imagens que criamos – sendo elas parte de uma realidade – contêm a realidade em si. Se estivermos abertos, as imagens são capazes de devolver para nós aspectos do mundo, outras parcelas de realidade que não sabíamos que estariam ali.

A frase de Orson Welles acima nos chama a atenção para algo que independe de nossas escolhas conscientes. As tais mensagens vêm de um lugar que não acessamos racionalmente e, por isso, sobre o qual não temos controle. Claro que escolhemos o que mostrar e como fazê-lo, mas a função desta reflexão e desta organização deveria ser a de dar asas ao impulso espontâneo, ao encantamento com o mundo. Talvez a função do autor, nesta etapa do processo, seja procurar compreender de onde vem o encantamento e, então, deixar com que ele chegue ao outro, o receptor, para que este possa experienciar suas próprias reflexões. Se permitirmos, a fotografia nos faz sonhar, trabalha nosso devaneio e nosso inconsciente, habita nossa imaginação e nosso imaginário.

A fotografia nos coloca diante de um mistério e não diante de uma certeza; tudo está por fazer para quem a recebe: pode recriá-la, intereceptá-la; a imagem é feita para que se imagine: realeza do receptor; é necessário saber fechar os olhos diante de uma foto e sonhar.

Paul Valéry

A fotografia nos lança para a realidade do sonho e para o sonho da realidade.